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segunda-feira, 25 de março de 2013

Diário de Viagem Floripa a Ushuaia - Parte 3

Dia 21: 15/01/2013 - Rio Gallegos a Caleta Olivia
Enquanto aproveitava para descansar um pouco mais, pela manhã o Guga foi instalar a corrente que havia comprado no dia anterior na “autorizada” da Yamanha. Assim que ele chegou começamos a arrumar nossas coisas para partirmos.
Debaixo de chuva (pelo menos não tinha vento), fomos novamente à autorizada dar os ajustes finos na corrente da moto do Guga. Uns 5 minutos após a minha chegada ele chega todo assustado. O baú traseiro tinha se soltado e ele quase caiu.
Após os ajustes, seguimos pela RN 3 sentido norte. O dia estava bastante quente e com vários pontos com chuva passageira. Na cidade de Comandante Luis Piedrabuena, passamos pela bela ponte que corta o Rio Santa Cruz. Um pouco mais a frente paramos para abastecer e fazer um lanche e reencontramos nosso amigo da VStrom, o Olavo.
Após 260 km de retas intermináveis, paramos novamente para abastecer e encontramos 2 gaúchos que estavam fazendo o caminho inverso e nos deram informações sobre as condições da estrada e uma ótima dica para quem viaja pela Argentina: o site da “Vialidad Nacional” (http://www.vialidad.gov.ar).
Viajamos por mais 200 km de estradas asfaltadas até chegarmos ao anoitecer na cidade litorânea de Caleta Olivia. Lá ficamos na Hospedaje Rodas. Quando começamos a conversar com o dono ele estava um pouco ríspido, mas depois de alguns minutos foi amolecendo o coração e até nos deixou colocar as motos dentro da pousada.
Saímos para comprar nossa janta num mercadinho próximo e notamos que estávamos sendo seguidos por um garoto argentino. Ele havia recém chegado das férias de Floripa e quando viu nossas camisetas com o símbolo da viagem veio puxar papo. Comemos um “delicioso” sanduíche de “jamon y queso” e fomos dormir.










Dia 22: 16/01/2013 - Coleta Olivia a Puerto Madryn

Os 80 km da RN3 que separam Caleta Olivia e Comodoro Rivadavia são um espetáculo da natureza. A estrada costeia o mar mas mesmo assim apresenta uma paisagem de deserto. Em Rivadavia notamos, pela quantidade de barro acumulado nas ruas que uma tempestade havia caído na cidade. Pesquisando depois vi que ela ocorrera dois dias antes e alagou diversos pontos da cidade.
Almoçamos em um posto YPF (este tinha pouca fila para abastecer) e continuamos rumando norte na RN 3. Como nos distanciamos do mar as paisagens foram ficando mais feias, porém o vento continuou nos acompanhando.
Em Puerto Madryn selecionei alguns albergues no GPS porém todos estavam cheios. Em um deles o atendente nos indicou o Che Patagonia Hostel, bem próximo ao mar. Descarregamos nossas coisas, tomamos um banho e fomos comprar uma carne pra jantarmos. Na cozinha do hostel conversamos com alguns argentinos e conhecemos um casal de franceses que estavam em uma aventura de 6 meses pela Argentina. É engraçado como podemos fazer grandes amizades em tão pouco tempo quando estamos com o espírito desarmado.
Depois da janta, demos uma volta na cidade com nossos amigos franceses e fomos dormir.




Dia 23: 17/01/2013 - Puerto Madryn a Viedma
Após acordarmos saí para comprar uns pães e recheá-los com a carne cozida na noite anterior. Arrumamos nossas coisas, tiramos fotos com nossos amigos franceses e tocamos para a RN 3 em sentido norte.
Próximo a San Antonio Oeste, paramos em um posto para abastecer e, como estávamos na fila mesmo, aproveitamos para comer os nossos deliciosos sanduíches de carne.
Chegando a Viedma abastecemos e tocamos para a cidade vizinha de Carmen de Patagones para procurar por hotéis. Como estavam muito caros para nosso orçamento, retornamos a Viedma e, após uma choradinha do Guga, conseguimos chegar a um preço aceitável.


Dia 24: 18/01/2013 - Viedma a Miramar

Tomamos nosso café da manhã no hotel e logo saímos pois teríamos um longo trecho de 700 km a percorrer durante o dia. De Viedma a Bahía Blanca mais uma vez passamos por retas intermináveis na RN 3.
Durante quase todo o dia tivemos temperaturas agradáveis, porém ao entardecer próximo a Miramar (e ao litoral) esfriou de repente nos fazendo vestir as roupas de frio que achávamos que não mais iríamos usar.
Coloquei um hostel no GPS porém, devido ao alto preço (170 pesos) resolvemos procurar um camping. Ficamos no “El Durazno”, bem próximo do mar. Chegando lá encontramos um argentino bem falador, meio maluquinho, mas apaixonado por motos que nos ficou empatando.
Demos entrada no camping e, após levantar acampamento e comprar carne para “parrillar”, já escuro, percebemos que não tínhamos como acender o fogo e nossa lâmpada estava quebrada. Fomos então que agraciados pelo Daniel, um argentino que estava acampando com sua esposa e filhas. Ele nos emprestou lâmpada, mesa, cadeiras e algumas brasas para assarmos nossa janta.
Como estávamos muito cansados, tomamos um banho e fomos dormir.




Dia 25: 19/01/2013 - Miramar
Tiramos o dia para descansar. Pela manhã caminhamos pela praia. Ela é um pouco diferente do que estamos acostumados, com suas cabaninhas e redes de jogos, mas nem por isso deixa de ser bela.
À tarde resolvi trocar o óleo da moto e foi quando percebi que dentre todas as ferramentas que trouxera, nenhuma me servia. Por sorte nosso amigo Daniel estava muito bem equipado e me emprestou uma chave de boca com cabo alongado, própria para isto.
Fomos dar uma volta pela cidade e tomar um café. A todo o momento víamos placas com o slogan “Miramar es família siempre”, demonstrando o perfil familiar da cidade. Caminhamos por um calçadão muito arborizado e cheio de bares e restaurantes. Ficávamos imaginando porque isso não ocorre em Floripa, uma cidade que se auto-intitula turística.
À noite, fomos convidados pelo Daniel para jantar e enquanto degustávamos um vinho argentino, comemos uma pizza com massa prepara por sua mulher e assada por ele na churrasqueira, a famosa “Pizza a la Parilla”.

Segue a receita:
Ingredientes:

  • 1 kg de farinha de trigo
  • 50 g de levedura de pão
  • Sal a gosto
  • 600 ml água morna
  • 1/2 copo de café ou taça pequena de óleo
Preparo da massa:

  • Colocar a levedura em um copo com água morna e uma pitada de açúcar
  • Esperar sair espuma (levedura ativada)
  • Misturar à farinha e o resto de água morna e sal.
Assando:

  • O carvão deve estar todo vermelho (maduro)
  • Colocar a massa e deixar assar um dos lados.
  • Virar a massa e por os temperos no lado já assado.
  • Pode-se usar uma tampa para assar melhor os temperos




Dia 26: 20/01/2013 - Miramar a Buenos Aires

Seguimos pela RN 11 até Mar del Plata. A cidade é muito bonita, porém muito urbanizada para nós que estávamos há quase um mês na estrada. Ela possui um dos maiores portos de pesca da Argentina e é um destino turístico durante o verão, quando sua população chega a triplicar.
Paramos em um posto para abastecer e comer um pão com frango que trazíamos na bagagem (sempre acompanhados de um amigo canino). Como estávamos com um pouco de sono, resolvemos tomar um café na loja de conveniência anexa. Notei que haviam algumas baias com pessoas acessando computadores, uma espécie de “Cyber Café”. O curioso era que todos estavam acessando o Facebook. Naquele momento, um domingo ensolarado no litoral, pensei comigo: - Parecem viciados.
Só mudou o tipo de droga. Cheguei à conclusão de que estavam ali por quererem escapar da realidade. Exatamente como qualquer drogado. Aquelas baias deveriam estar vazias. Vai ver fiquei muito tempo na estrada e enloqueci.
Após a cidade de Dolores na RN 2, a cerca de 180 km de Buenos Aires paramos em um posto para fazer um lanche e conhecemos alguns dos integrantes do grupo LAMA (Latino Americanos Motociclistas Associados). Pessoas boníssimas, nos convidaram para irmos juntos até Buenos Aires.
Na entrada da capital, paramos em um posto para abastecer e eles pediram que eu fosse à frente por conta do GPS. Inserimos a Rua Estanislao de Campo, cidade de Ezeiza na Grande Buenos Aires e fomos seguindo a rota. Entretando o GPS me forneceu a rota mais curta, que passava por alguns bairros estranhos e nos fez perder um grande tempo por causa dos diversos semáforos.
O melhor caminho, segundo nosso anfitrião em Buenos Aires era termos continuado pela Autopista Buenos Aires - Mar del Plata (RN 2), esquerda para Autopista Buenos Aires - la Plata até o bairro de San Telmo, onde dobraríamos novamente à esquerda para a Autopista 25 de Mayo. De lá seguiríamos “todavida” até o nosso destino.
Brincadeiras à parte por conta do GPS, fomos muito bem recebidos por nossos colegas que, inclusive, não nos deixaram pagar nada.




Dia 27: 21/01/2013 - Buenos Aires a Piriápolis

Pela manhã saímos de Ezeiza para o Buquebus com nossos companheiros LAMAs. Chegando próximo ao centro me pediram novamente para utilizar o GPS que nos mandou novamente pelo caminho mais curto e cheio de semáforos. Lição aprendida: não se basear pelo GPS em Buenos Aires.
Deixamos as motos no estacionamento do Buquebus e fomos comprar as passagens. Assim como milhares de outras pessoas, ficamos na fila de quem já tinha reserva. Depois pegamos as fila para marcação da passagem, para pagamento da passagem, para a alfândega e voltamos novamente para onde estavam nossas motos (estou ficando tonto). Após uma revista “pra inglês ver”, estacionamo-las no barco e subimos para a área destinada a passageiros.
O barco é bem equipado com cadeiras confortáveis, lanchonete e, ainda por cima, possui uma apresentação musical. Aproveitamos para descansar e tirar umas fotos. 3 horas depois estávamos em Colonia del Sacramiento, no Uruguay, uma cidade pitoresca, muito parecida com Parati - RJ. Aproveitamos para dar uma caminhada e tirar mais algumas fotos.
Em Montevideo mais fotos na Plaza de Independiencia e na avenida 9 de Julio. Por indicação de nossos amigos LAMA resolvemos tocar pela rodovia Interbalnearia (IB), até Piriapolis, próxima a Punta del Este.
Coloquei o camping Aebu no GPS, porém chegando lá não me agradei muito. Falei para o Guga e fomos dar uma olhada no camping Piriápolis que, de quebra, era mais barato.  No mercadinho dentro do camping compramos carne e o dono nos emprestou uma grelha. Acendemos a churrasqueira com folhas secas dos pinheiros que nos rodeavam. Nos sentimos como o personagem do Tom Hanks no filme O Náufrago, que acabara de descobrir como fazer fogo.
Enquanto assávamos nossa janta, encontramos uma molecada de Joinville que estava voltando de uma aventura até Buenos Aires em um Palio 1.0. Prova de que não é necessário muito dinheiro ou conforto para a realização de sonhos.












Dia 28: 22/01/2013 - Piriapolis
Tiramos o dia para descansar e conhecer a cidade. Pela manhã demos uma caminhada na Rambla de los Argentinos (a Beira Mar de Piriápolis) e tomamos um banho no mar gelado. Na volta passamos em uma “carneria” e assamos uma carne na lenha já que ninguém é de ferro.
À tarde pegamos nossas motocas e fomos visitar o Cerro San Antonio que possui uma belíssima vista de toda a orla. Estacionamos na “rambla” e saímos para dar mais uma  caminhadinha na praia. Tiramos fotos do pôr do sol no mar, que era aplaudido pelos uruguaios.   Voltamos para o camping, assamos outro churrasco à lenha acendida com folha de pinheiro e fomos dormir.






Dia 29: 23/01/2013 - Piriápolis a Santa Vitória do Palmar
Na noite anterior, nossos amigos de Joinville sugeriram visitarmos a Casapueblo, na Punta Ballena, próxima a Punta del Este. Era a casa de verão do famoso artista uruguaio Carlitos Paez, agora transformada em cidadela-escultura. Entretanto, chegando lá acabamos só tirando algumas fotos de longe, ficando o gostinho de quero mais.
Punta del Este marca o encontro do Rio da Prata com o Oceano Atlântico e é uma cidade bastante luxuosa. O casino Conrad e os iates na marina chamam a atenção para este quesito. Continuamos pela orla até o Monumento al Ahogado comumente conhecido como “la mano” que, apesar de ser muito bem feito, achava que seria mais bonito.
Passamos por Maldonado e paramos em San Carlos para abastecer e fazer um lanche. Chegando a Chuy no Uruguai, que é separado de Chuí no Brasil por uma avenida, demos uma procurada por pneus, porém achamos que não valia a pena. Lá encontramos um gaúcho que já havia morado em Floripa e, como o Guga tinha que novamente trocar o óleo, indicou que o fizesse em Santa Vitória.
Fiquei em Chuy para comprar algumas poucas lembrancinhas em uma dessas lojas tem-de-tudo. Após uma operação de gerra, já que não havia muito espaço disponível, consegui colocar os presentes na moto e rumei para a fronteira. Passagem tranquilíssima pela aduana, nem precisei realizar os procedimentos migratórios.
Chegando à concessionária que combinamos de nos encontrar em Santa Vitória me informaram que o Guga havia ido trocar o óleo em outra loja de motos. De lá seguimos um dos mecânicos até um hotel “bom e barato” para tomarmos um banho. Saímos a pé para lanchar nossa janta, um super X e algumas cervejas geladas. Nada como sermos atendidos em português!











Dia 30: 24/01/2013 - Santa Vitória do Palmar a Osório
Tomamos nosso café da manhã no hotel e seguimos para o norte pela BR 470. Próximo à Rio Grande paramos em um restaurante de caminhoneiro e comemos muito arroz, feijão e carne, nada de sanduíches de “jamon y queso”!
Em Rio Grande aguardamos por 45 minutos até pegarmos a balsa que nos levaria a São José do Norte, atravessando a Lagoa dos Patos. Escolhemos este caminho pois nos disseram que, além de mais curto e tranquilo, era muito bonito.
Em São José se inicia a BR 101, que passa por praticamente todo o litoral leste brasileiro, até o Rio Grande do Norte. O trecho até Osório passa por dentro de uma reserva ambiental e possui diversas capivaras e espécies de pássaros que invadiam a pista, forçando-nos a diminuir a velocidade e a buzinar para espantá-las.
A cerca de 100 km de Osório, uma chuva torrencial nos acompanhou até a chegada ao hotel. Pouco antes, passamos por um parque eólico com enormes turbinas, um espetáculo construído pelo homem. Efetuamos o checkin, tomamos um banho, jantamos um lanche com cerveja e fomos dormir. No dia seguinte estaríamos em casa!


Dia 31: 25/01/2013 - Osório a Florianópolis

Tomamos um café da manhã reforçado no hotel e, às 10 hs, seguimos para Torres pela RS 389, a via costeira paralela à BR 101. Entramos para dar uma olhada na praia de Atlântida e pegamos uma baita fila para sair.
Após Torres, continuamos pela BR 101 sentido norte até pararmos na casa do meu pai em Palhoça para tomarmos um café. Chegando lá ele levou um susto com a barba que eu não fazia desde que saíra de casa. Comemos um bolinho, conversamos um pouco e saímos.
Pouco antes de retornar à BR 101, ao passar por um buraco, a corrente da moto do Guga sai da coroa e trava a roda. Efetuamos um reparo emergencial, porém a corrente continuava bem frouxa, podendo cair a qualquer momento.
Seguimos bem devagar, às vezes pelo acostamento, até a Beira Mar de São José, que marcou o fim da maior aventura de nossas vidas até o momento. Que venham as próximas!





quinta-feira, 7 de março de 2013

Diário de Viagem Floripa a Ushuaia - Parte 2

Dia 11: 05/01/2013 - Villa la Angostura a Gobernador Costa
Levantamos acampamento e continuamos pela RN 231 e RN 4 até San Carlos de Bariloche. Demos uma passeada na cidade e encontramos grupo de motociclistas de Joinville. Achamos ela “muito cidade” com todos os problemas que estamos acostumados (filas, sujeira, pobreza, etc).
Continuamos para o sul até El Bolson, cidade natal de uma grande amiga minha. Lá encontra-se a cervejaria que leva o mesmo nome da cidade e que segundo minha amiga é a melhor do mundo. E a segunda melhor da Argentina.
Pegamos um lanche e fomos saboreá-lo na Plaza Pagano onde havia uma feirinha. Não ficamos muito pois fomos expulsos por um “guardinha” já que as motos estavam “estacionadas” na calçada.
O sono foi uma constante durante a tarde, já que a estrada tinha poucas curvas e não estávamos mais acompanhados pelos belos montes nevados. Lá pelas 3 hs da tarde não aguentamos e paramos embaixo de uma árvore para tirar uma soneca.
Paramos num posto na cidade de Tecka para tomar um café e nos deparamos com uma grande fila para abastecer. Perguntamos à frentista e ela nos informou que havia posto na próxima cidade, Gobernador Costa. Porém ao chegarmos lá não havia mais “nafta”, o que nos obrigou a dormir na cidade. Foi até bom pois pegamos uma hosteria bem ajeitada, com estacionamento coberto para as motos, cozinha, banheiro e TV a Cabo enquanto lá fora o vento bombava.









Dia 12: 06/01/2013 - Gobernador Costa a Bajo Caracoles
Acordamos de manhã, nos ajeitamos e tocamos para abastecer as motos no posto. Estava chovendo e, quando chegamos lá, uma grande fila nos atrasou por mais de 30 minutos.
Continuamos na RN 40 para o sul, onde pegamos mais de 100 km de rípio e estradas em construção.
Ao chegarmos cansados, quase à noite, em Bajo Caracoles, uma vila de 30 habitantes no meio do rípio, perguntamos por um quarto no único “hotel” da cidade.  O valor estava em 480 pesos argentinos, sem chance de negociação, quase o dobro do que pagamos em Gobernador Costa.
Resolvemos abastecer o tanque das motos no “posto” que era controlado pelo pessoal do “hotel”. Apesar da gasolina estar bem cara, por precaução coloquei 4 litros no galão reserva.
Ficamos discutindo se continuaríamos a viagem ou não. Optamos por montar a barraca em um terreno baldio protegidos por um container. Dormi com fome e frio.







Dia 13: 07/01/2013 - Bajo Caracoles a El Chalten
Desmontamos nosso acampamento dos sem terra e pilotamos por mais de 200 km de rípio em diversas condições. Chegando em Tres Lagos paramos no único posto da cidade para fazer um lanche e abastecer. Descobrimos que ali não havia “nafta” (gasolina) e que não havia previsão para chegar. Discutimos o que iríamos fazer já que não tínhamos combustível no tanque para chegar à cidade mais próxima, El Calafate.
Coloquei 3 litros do galão reserva na moto e seguimos em baixa velocidade. No meio do caminho, acompanhando as placas percebi que El Chalten era mais próxima que El Calafate, apesar de termos que sair da rota. Conversei com o Guga e acertamos de ir para lá.
El Chalten é uma pequena vila turística de 1200 habitantes dentro do Parque Nacional Los Glaciares. É muito procurada para prática de esportes de aventura como trekking, montanhismo e rafting.
A cerca de 18 km da vila a moto do Guga começa a falhar e dou o último litro do galão reserva para ele. No único posto da cidade não havia nafta e ela só chegaria depois do dia seguinte.
Perguntamos em alguns hostels, porém ou estavam cheios ou só com reserva. Por sorte, encontramos o hostel Ahonikenk Chaltén, bem simples mas muito bacana.





Dia 14: 08/01/2013 - El Chalten
Dividimos nosso quarto com mais 2 israelenses. Em Israel é muito comum os jovens, após completarem o serviço militar (3 anos para homens e 2 para mulheres), viajarem durante vários meses para diferentes países. A região patagônica é um destino muito procurado por eles.
Após o café da manhã saímos para tentar abastecer as motos, mas como não havia nafta (gasolina) no posto resolvemos fazer a trilha para o monte Fitz Roy, um pico nevado muito famoso. Na cidade havia um vento gelado muito forte e por isso vestimos várias camadas de roupas. Na trilha, como havia a montanha cortando o vento e estávamos nos mexendo, começamos a sentir calor. Resolvemos “abandonar” uma parte de nossas roupas para pegá-las na volta.
O “Río de Las Vueltas” dava um charme especial à trilha que atravessava bosques com ávores castigadas pelo frio e pelos fortes ventos da região. Chegando ao “mirador” haviam várias pessoas tirando fotos. Achei interessante o casal com bebê de colo carregado numa bolsa canguru. A cena me fez refletir sobre toda a proteção exagerada e distância da natureza por que passam as crianças de hoje em dia.
Passamos pela Laguna del Pato e aproveitamos pra tirar uma soneca. Na volta encontramos um grupo de brasileiros e uma coisa que um deles falou me gravou na mente: “A Patagônia vicia”.
Ao anoitecer fomos ao único posto averiguar se havia nafta. Nunca fiquei tão feliz em ver uma “cola” (fila) já que na Patagônia Argentina ou as “estaciones de servicios” (postos) têm fila ou não têm combustível. Apesar da gasolina cara, por motivos óbvios coloquei mais quatro litros no galão reserva.
À noite, na cozinha do hostel, com aquele clima gostoso de Babel, várias línguas eram faladas mas todos se entendiam. Na companhia de um argentino muito gente fina que estudava filosofia em Buenos Aires, jantamos um “delicioso” macarrão com nosso vinho de cada dia.











Dia 15: 09/01/2013 - El Chalten a El Calafate
Acordamos e comemos os restos da janta. Arrumamos nossas coisas e tocamos o pé na estrada. Os pouco mais de 200 km que separam El Chalten de El Calafate são um espetáculo da natureza. Os lagos Viedma e Argentino com os montes nevados da cordilheira dos Andes ao fundo me fizeram refletir sobre a insignificância do homem e suas preocupações.
Ao chegarmos em El Calafate, abastecemos as motos e fomos procurar uma oficina para trocar o óleo da moto do Guga. Como esta só trocava óleo de carro, um dos mecânicos se dispôs a nos “ajudar”. Muito enrolado, ao invés de ir buscar o óleo sozinho, ou apenas nos ter indicado o local, nos fez segui-lo até uma loja especializada em motos, e depois segui-lo novamente para voltar ao ponto de partida. Pra completar não entendia nada de troca de óleo em motos, e cobrou uma fortuna por algo que muitas vezes é realizado de graça: 100 pesos argentinos.
Fizemos o checkin no Hostel Calafate e, como já estávamos atrasados, fomos ver o Glaciar Perito Moreno. Ele se encontra no Parque Nacional Los Glaciares há cerca de 80 km da cidade, possui 5 km de extensão e aproximadamente 60 metros.
Conseguimos chegar a tempo de realizar o passeio de barco “Hielo&Aventura” que nos deixoua à 300 mts da parede de gelo. Visto de perto, o Glaciar é de uma beleza tão intensa que nem parece ser de verdade. Devido a um fenômeno óptico explicado pelo guia (o qual não entendi muito bem) a maioria das fotos ficavam claras demais e não conseguiam representar nem de perto a majestosidade do local.
Durante o passeio uma chuva começou a cair em nossas cabeças e lembramos das nossas capas no hostel em Calafate. É muito comum a queda de blocos de gelo que se desprendem do Glaciar, tentamos vê-la partir do mirante porém só conseguimos escutar.
Foi só sairmos do parque que a chuva parou. Olhei para trás e ela estava concentrada bem em cima do Glaciar. Tomamos um banho no hostel e saimos para comprar nossa janta. Durante o preparo, naquela miríade de línguas conhecemos uns escaladores brasileiros que estavam fazendo trekking nas montanhas do parque.
Jantamos juntos e saímos para dar uma caminhada na cidade. De volta ao hostel conhecemos o dono do restaurante, uma argentino que já havia morado no Brasil e entendia tudo de MPB. Ficamos até altas horas jogando papo fora e curtindo uma rodinha de samba.







Dia 16: 10/01/2013 - El Calafate a Torres del Paine
No café da manhã encontramos o Olavo, paulista dono de uma Suzuki VStrom 650cc que havíamos conhecido na noite anterior. Como ele também estava indo para o sul, resolvemos seguir viagem juntos. Atravessamos juntos a fronteira em Cancha Carrera na Argentina e o Paso Río Don Guillermo no Chile. Neste último presenciamos uma cena um tanto pitoresca: um argentino estava discutindo em voz alta com os agentes fronteiriços pois estes estavam vasculhando toda sua bagagem. Uma voz roca que virou motivo de piada no resto da viagem.
Após alguns perrengues de falta de gasolina e ventos que quase o derrubaram o Olavo acabou tocando direto para a cidade de Puerto Natales. Eu e o Guga resolvemos continuar para Parque Nacional Torres del Paine.
O parque é muito bonito e, para visitá-lo, moradores do Mercosul pagam 40 dólares. Lá o vento é uma constante nos faz quase cair diversas vezes. Para se ter uma idéia, ele derrubou a moto do Guga no chão enquanto estávamos tirando fotos do lago Sarmiento.
Ficamos no camping Pehoe dentro do parque. Ele possui boa infraestrutura, com banheiros, mesas, churrasqueiras e um telhado para proteger a barraca do vento. Entretanto, é bom levar comida ou estar preparado para gastar no restaurante, já que o “mercadinho” tem pouca variedade de comidas.
Nesse mercadinho conhecemos um casal de alemães que, vendo a nossa necessidade, nos deram macarrão. Misturamos com o Miojo que o Guga havia trazido do Brasil porém no meio do cozimento o gás do fogareiro acaba. Estávamos com muita fome, mas mesmo assim não conseguimos comer tudo. Dormimos de barriga vazia mesmo.









Dia 17: 11/01/2013 - Torres del Paine a Punta Arenas
Durante a madrugada escutamos alguns barulhos próximos à barraca. Xingamos, batemos palma e gritamos mas o barulho permaneceu. Abri a barraca para ver o que era e pude notar o vulto do que parecia ser uma raposa. Tentei espantá-la sem sucesso. Como estava frio, fiquei com preguiça e voltei a dormir dentro do meu saco. Ao acordarmos de manhã percebemos que tudo que tinha comida dentro estava revirado e vazio. Lá se foi nosso delicioso macarrão “al-quebra-dente”.
Continuamos rumando sul junto ao trio mais comum da Patagônia: rípio, vento e paisagens maravilhosas. O cansaço começa a pesar e um pequeno desânimo nos bate: “não chegamos nunca no fim do mundo e nossa casa só fica mais longe!”
Em Puerto Natales abastecemos as motos e fomos procurar algum lugar para comer. Paramos em um supermercado e compramos um frango assado, pão e suco de laranja. Depois tocamos para a Plaza 1o de Mayo onde, na companhia de nossos amigos caninos, devoramos nosso almoço.
O vento que já era forte foi aumentando próximo a Punta Arenas. Nos disseram depois que ele chegou a 90 Km/h. A cidade possui uma zona franca e as coisas realmente são baratas. Não há muito o que se comprar para motos mas mesmo assim o Guga conseguiu trocar o pneu traseiro e eu comprei óleo e um galão reserva para combustível.
Coloquei uma hospedagem no GPS mas ela estava cheia. A dona ligou para diversos outros estabelecimentos e nos conseguiu uma pousada bem aconchegante, com banheiro privado, de uma senhora bem velhinha e muito querida. Ponto para os chilenos.
Jantamos cachorro quente em um posto, voltamos para a pousada, amarramos as motos e fomos dormir no quentinho.





Dia 18: 12/01/2013 - Punta Arenas a Ushuaia
Tomamos um café da manhã reforçado na pousada e começamos a nos arrumar para mais um dia de viagem. Pelo menos este seria o último dia que estaríamos indo para o sul, para mais longe de casa.
Por volta das 10 hs seguimos para o porto de Punta Arenas pegar a balsa que nos levaria através do Estreito de Magalhães para Porvenir na Tierra del Fuego. Chegando lá descobrimos que só havia horário às 15 hs o que nos fez andar 164 km até a balsa em Punta Delgada.
Depois da balsa há um trecho de 42 km de asfalto e 120 km de rípio até a aduana em San Sebastian que é bem pesado de se passar devido ao constante vento que sopra.
50 km antes de chegar em Ushuaia paramos para tirar umas fotos do Lago Escondido e conhecemos 3 motociclistas de Recife - PE: Olinto, Fábio e Rogério. Pessoas especiais, daquelas que parece que se conhece há anos e que fazem a viajem valer a pena. Após a sessão de fotos e brincadeiras no penhasco tocamos juntos até o portal de Ushuaia que marcaria o alcance do objetivo maior da viagem: chegar ao “FIN DEL MONDO”!
Combinamos de nos encontrar no dia seguinte e eu e o Guga fomos procurar um hostel. Perguntamos em diversos locais até encontrarmos o Hostel Los Lupinos. Ao descarregar as bagagens, percebi que não tinha fechado direito o galão reserva e minhas roupas ficaram cheirando a gasolina. Lavei-as no banho e depois saímos para jantar um lanche e tomar uma Quilmes pra comemorar!













Dia 19: 13/01/2013 - Ushuaia
De manhã encontramos nossos amigos de Recife e combinamos de realizar o passeio de van para o Parque Nacional Tierra del Fuego. Chegando lá almoçamos uns petiscos e bebemos vinho argentino. Fomos então tirar fotos na famosa placa que indica o fim da RN 3 um marco de que ali é realmente o fim do mundo.
Na volta combinamos de comer um centolha (king crab ou caranguejo gigante). Ele é conhecido em todo o mundo por ter o sabor mais suave que a lagosta e mais marcante que o caranguejo tradicional. Pode chegar a 4 kg e suas patas até 20 cm. Particularmente, preferi o sabor mais acentuado da lagosta.









Dia 20: 14/01/2013 - Ushuaia a Rio Gallegos
Na noite anterior marcamos com o pessoal de Recife para sairmos juntos, porém como havia um roncador coloquei um tapa ouvidos e deixei o relógio para despertar o Guga. De madrugada ele também colocou um tapa ouvidos e, por isso, ambos não escutamos o despertador. Como não queríamos atrasá-los falamos para irem na frente que os alcançaríamos.
Pouco antes da fronteira com o Chile em San Martin não havia “nafta” no posto. Aqui começou o nosso perrengue. O próximo posto, segundo o GPS, era em Cerro Sombrero, a 120 km. Caso contrário teríamos que voltar para Rio Grande a 80 km. Consegui comprar um galão de 4 litros de um curitibano que estava em uma BMW F800. Como ambos estávamos na reserva, com esses 4 litros talvez conseguíssemos chegar a Cerro Sombrero.
Após a aduana, no começo do trecho de rípio a moto do Guga começa a falhar. Achamos ser por falta de gasolina e colocamos 2 litros no tanque, porém mais para frente descobrimos tratar-se da corrente. Pedimos ajuda para um casal de canadenses que levaram tanto o Guga quanto a moto até Rio Gallegos.
Enquanto isso eu ainda estava com pouco combustível. Coloquei os 2 litros restantes no tanque e segui para Cullen. Nunca me esquecerei deste local. Era um acampamento petrolífero que por milagre tinha um posto (não mapeado pelo GPS). Além de encher o tanque, enchi o galão reserva.
Encontrei o Guga em Cerro Sombrero e, a partir dali, fui seguindo a camionete até Rio Gallegos. Chegando lá descarregamos a moto do Guga da caçamba e fomos procurar um hostel. Estava cansadíssimo por conta de todo o stress e trajeto de rípio e, por isso, ao chegar tomei uma cerveja para relaxar. O foda foi escutar o Guga dizer que a viajem dele de carro tinha sido muito tranquila. Como de praxe jantamos uns sanduíches e fomos dormir.



Continua....